domingo, 11 de novembro de 2012

O racismo contra um adulto é intolerável. Contra uma criança indefesa, pior ainda.


Mãe denuncia racismo contra filha de 4 anos; aluna é xingada de "preta horrorosa"De acordo com ela, menina foi ofendida por avó de garoto que se revoltou com o fato de o neto ter dançado quadrilha com uma criança negra. Polícia vai investigar o caso

Publicação: 20/07/2012 06:00 Atualização: 20/07/2012 09:05
Fátima diz que filha está se sentindo inferior por ser negra e que vai procurar atendimento psicológico para a menina (Euler Júnior/EM/D.A Press)
Fátima diz que filha está se sentindo inferior por ser negra e que vai procurar atendimento psicológico para a menina
“Quero saber por que deixaram uma negra e preta horrorosa e feia dançar quadrilha com meu neto.” Foi assim, segundo o que já foi apurado pela polícia, que a avó de um aluno de uma escola infantil particular em Contagem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, se referiu a uma menina de 4 anos, em um caso de crime de racismo que revoltou funcionários do Centro de Educação Infantil Emília e levou a mãe da criança a denunciar a mulher à polícia. A diretora da escola foi acusada de não ter feito nada para impedir as ofensas racistas e ainda ter tentado abafar o caso.

O episódio ocorreu dia 10, mas somente ontem, apoiada pela organização não governamental SOS Racismo, a mãe da menina, a atendente de marketing Fátima Viana Souza, revelou detalhes do caso. Ela só ficou sabendo das agressões à filha porque a professora Cristina Pereira Aragão, de 34 anos, que testemunhou tudo, inconformada com a situação e com a falta de ação da diretora da escola, pediu demissão e procurou a família da menina para denunciar o que ocorreu. Outra professora confirmou aos pais da criança a denúncia feita por Cristina. 

Fátima lembrou que a festa junina foi no sábado, dia 7, e que toda a sua família foi para prestigiar a menina. Na terça-feira, dia 10, a avó do garoto, de acordo com o que consta no boletim de ocorrência policial ao qual o Estado de Minas teve acesso, invadiu a escola aos gritos querendo saber por que deixaram uma “negra horrorosa” dançar com o neto dela. “Minha filha presenciou tudo e foi chamada de preta feia. Os coleguinhas da sala ao lado escutaram e foram ver o que estava acontecendo”, disse a mãe, chorando. “Minha filha ficou quieta num canto da sala e a professora a defendeu dizendo que a atitude daquela mulher era crime. Mesmo assim, minha filha continuou sendo insultada”, disse Fátima. 

A mãe disse ainda que não foi informada do ocorrido. No dia, seu marido buscou a filha na escola e tudo parecia normal. Ela lembrou que naquela terça-feira a menina chegou perturbada da escola, não jantou e não conseguiu dormir. “Achei que ela tivesse brincado demais e estava cansada”, disse Fátima. No dia seguinte, a menina vomitou na sala de aula e a diretora alegou para os pais que ela havia comido muitos salgados num piquenique da escola. A professora, que já havia pedido demissão, procurou os pais e contou o que havia acontecido. 

“Fiquei desesperada. Foi horrível. Acho que a minha filha vomitou de medo. Conversei com ela, que repetia o tempo todo que não fez nada, se sentindo culpada. O racismo contra um adulto é intolerável. Contra uma criança indefesa, pior ainda. E eu não estava lá no momento para defender a minha filha”, lamentou Fátima, que vai tirar a menina da escola e quer que a agressora seja punida. “Vou lutar na Justiça pela minha filha e por tantas outras crianças negras que passam pela mesma situação e não é feito nada”, disse. Fátima informou que vai providenciar atendimento psicológico para a filha. “Ela está se achando inferior, que o bom é ser de outra cor”, concluiu.


Indignação e demissão

A professora Cristina contou ter ficado indignada com a falta de atitude dos responsáveis pela escola e pediu demissão. “A diretora disse que não iria comunicar nada aos pais da menina, nem chamar a polícia, pois esse tipo de problema acontece em qualquer escola e que se fosse brigar com toda família preconceituosa não teria ninguém estudando na sua escola. Fiquei revoltada e preferi me desligar da escola para não ser conivente com um ato criminoso”, disse Cristina. Ela acrescentou que tentou evitar que a menina escutasse as ofensas, mas a mulher apontou o dedo em seu rosto e a mandou ficar calada, afirmando que a professora recebia salário para dar aula para o neto dela.

O delegado da 3ª Delegacia de Polícia de Contagem, Antônio Fradico de Araújo, instaurou inquérito e vai intimar a avó do garoto, identificada apenas como Mariinha, e os demais envolvidos na ocorrência para prestar depoimento. A Coordenadoria de Promoção da Igualdade Racial de Contagem acionou os órgãos de defesa dos direitos humanos e também o Ministério Público Estadual, pedindo providências.

Agravantes 

O advogado do SOS Racismo e professor de direito da PUC Minas, José Antônio Carlos Pimenta, esclarece que a pena para o crime de racismo pode chegar a nove anos de prisão. Mas, no caso da menina ofendida em Contagem, a Justiça pode considerar injúria racial, que tem pena de no máximo três anos. “Mas há dois agravantes nesse caso e a pena pode aumentar. O crime foi cometido dentro de uma escola e a vítima é menor de 18 anos”, disse o advogado. A responsável pela  escola também pode responder civilmente, pois ela tinha o dever legal de proteger a menina, analisou o advogado. A diretora, do Centro de Educação Infantil Emília, Joana Reis Belvino, foi procurada pelo EM, mas se recusou a comentar o caso. A polícia não forneceu informações que permitissem identificar e localizar a mulher denunciada por racismo.
 

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Cansaço, até um pouco de desmotivação... mas enfim, fim de ano está aí. Vamos aos preparativos que antecedem a data mais linda do ano NATAL.
Opções de enfeites natalinos feitos a partir de materiais recicláveis.


domingo, 7 de outubro de 2012


O africanista do Brasil

Próximo de completar 80 anos, o historiador, diplomata, ensaísta, poeta e membro da Academia Brasileira de Letras, Alberto Costa e Silva fala sobre a necessidade de restaurarmos a importância da África na formação da história e da cultura brasileira
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O mais conhecido e cultuado quadro do pintor pernambucano Cícero Dias (1907-2003), tem um sugestivo e poético título: Eu vi o Mundo... ele começa no Recife, e serve como metáfora para a maneira como Alberto da costa e Silva foi tomando conhecimento sobre o mundo, que chegava a ele por meio dos livros. "cresci entre livros e o mundo me foi sendo apresentado a partir do momento que abria as suas páginas", disse Alberto à RAÇA Brasil. E foi a partir da leitura de Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freyre, que o maior especialista Brasileiro sobre o continente africano, particularmente a África, se interessou pela história e pela cultura daquele continente e do seu povo. Dessa leitura e de outras que vieram no decorrer de sua vida, ele procurou entender a importância da África para construção da nação brasileira. Segundo ele, tal fato sempre foi negligenciado no ensino da História do Brasil.
Você foi leitor e admirador de Gilberto Freyre. E foi Casa Grande & Senzala que abriu seus olhos para a história da África, em 1947. A obra do autor ainda merece tanta atenção? E por que ele ficou conhecido, injustamente, como o criador do mito da "democracia racial"? 
Há muito equívoco em relação a esse termo, supostamente criado por Gilberto Freyre. Mas não é verdade que ele o cunhou. isso já havia aparecido nos escritos de um dos maiores antropólogos brasileiros, Arthur ramos. O que aconteceu é que Freyre, que fez seus estudos de doutorado nos Estados unidos nos anos 20, percebeu que a discriminação racial nos Estados unidos era mais violenta do que a brasileira, muito em função da miscigenação que aqui ocorreu, diferentemente dos Estados unidos. Em Casa Grande & Senzala, ele denunciava a violência, que fora a nossa escravidão. O que dizia, apropriadamente, era que aqui no Brasil tínhamos uma forte inspiração para uma democracia racial, que eu acredito piamente que algum dia isso acontecerá. E, realmente, como você mesmo falou, desde aquele dia, em 1947, quando abri as páginas de Casa Grande & Senzala, não tirei mais a atenção a tudo que era relacionado à África, o que naquela época era muito escasso, pois quando encontrava alguma coisa era uma felicidade indescritível. Em relação à importância e ao interesse sobre a obra de Gilberto Freyre não há o que discutir. Ele sempre será atual e muita das coisas que pesquisou e escreveu vão merecer a atenção de todos aqueles que se interessam pela compreensão mais exata da história social do Brasil.


quinta-feira, 20 de setembro de 2012